Especialistas não concordam com redução do tempo de isolamento para Covid-19

 Especialistas não concordam com redução do tempo de isolamento para Covid-19

O Ministério da Saúde reduziu o período de quarentena da Covid-19 para pacientes que testaram positivo e estão com casos leves ou moderados. O prazo baixou de dez para sete dias.

Se no quinto dia o paciente estiver sem sintomas respiratórios, sem febre e uso de medicamentos há 24 horas, ele pode realizar a testagem. Caso o resultado seja negativo, poderá sair do isolamento e comprometer-se a usar máscara. Com o resultado seja positivo, o isolamento deve continuar até o décimo dia.

Esta é uma medida bastante perigosa, principalmente neste momento, em que há uma nova onda da pandemia, por uma cepa que se propaga muito mais rápido. Embora o percentual de vacinados já faça com que a maioria dos casos sejam menos graves, as unidades de saúde de várias as cidades já estão superlotadas. 

A redução do tempo de isolamento não é consenso entre as entidades da saúde e especialistas da área. A Sociedade Brasileira de Infectologia informou que até o momento não tem um posicionamento sobre o assunto. Mas vários especialistas ouvidos pela imprensa nos últimos dias, relatam que faltam critérios científicos mais robustos para tomar essa decisão.

Em entrevista à CNN, a médica infectologista Luana Araújo avalia que faltam dados para realizar qualquer redução no prazo de isolamento de forma segura no contexto da variante Ômicron.

Nos Estados Unidos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) reduziram o tempo de isolamento recomendado de dez para cinco dias para assintomáticos após teste positivo para a Covid-19. No entanto, segundo Luana Araujo, “as características clínicas da Ômicron parecem ser um pouco diferentes das outras variantes. Ela tem uma proliferação em via respiratória alta e outros fatores que podem interferir no tempo de transmissão. Não temos dados concretos reais para dizer se cinco dias são suficientes para que a redução seja feita de forma segura. Exatamente por isso a decisão do CDC tem sido tão criticada, ela não tem uma base científica, tem uma base de necessidade econômica, de recursos humanos”, diz. 

O presidente da Sociedade Paulista de Infectologia, Carlos Fortaleza compartilha a mesma opinião. Ele diz que a medida “não faz sentido do ponto de vista científico”, já que o pico da transmissibilidade acontece entre o 5º e o 6º dia após o diagnóstico positivo. “Liberar a pessoa neste período desde que use máscara não faz nenhum sentido, isso foi uma concessão do CDC, dos Estados Unidos, à pressão econômica. É importante lembrar que os Estados Unidos não são um bom exemplo no controle da Covid-19”, completou na mesma entrevista à CNN.

Para o infectologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Júlio Croda, a alta transmissibilidade da variante Ômicron deve ser avaliada na tomada de decisão pelo Ministério da Saúde no Brasil.

“Talvez não seja o período ideal para reduzir para cinco dias de isolamento. Tudo tem que ser observado: o risco-benefício, o número de trabalhadores afastado e o CDC está levando em conta justamente isso, o impacto econômico desses afastamentos, principalmente em atividades essenciais”, afirmou Croda.

A opinião da presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo, Elaine Leoni, é que qualquer redução no prazo de isolamento deveria ser acompanhada de medidas de saúde pública, como testagem em massa e o acompanhamento do quadro clínico dos pacientes.

“Nos Estados Unidos existe testagem gratuita, há um serviço de telemedicina muito mais avançado que o nosso, existem outras medidas de saúde pública que compõem um pacote que talvez permitam esse tipo de redução, mesmo assim, é bastante criticado”, afirma a infectologista Luana Araújo. No Brasil, não há programa de testagem ampla e o apagão dos dados do Ministério da Saúde, sequer permite o acompanhamento do número de contaminados e mortos. 

Diante disso, é ainda mais grave o pedido da Associação Nacional de Hospitais Privados para reduzir para cinco dias o afastamento de profissionais de saúde infectados pela Covid-19. O Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo repudia essa intenção e se manifesta absolutamente contrário à medida. Os profissionais de saúde não podem ser responsabilizados pela falta de pessoal nem colocar suas vidas em risco para garantir o lucro de empresas privadas.

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