Mais de 4.500 profissionais de saúde morreram na pandemia no Brasil

14/10/2022

Levantamento encomendado pela ISP (Internacional de Serviços Públicos) mostra que, entre março de 2020 e dezembro de 2021, morreram mais de 4.500 profissionais da saúde pública e privada no Brasil. 80% eram mulheres, metade negras, a maioria enfermeiras, técnicas e auxiliares de enfermagem.

O levantamento foi realizado pela Logam Datam, que cruzou dados oficiais produzidos pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério do Trabalho. Por outro lado, não existem dados oficias sobre quantas pessoas trabalharam na linha de frente do combate à pandemia, visto que houve grande rotatividade no mercado de trabalho da saúde na época e muitos profissionais atuam em mais de uma unidade de saúde.

As informações desse levantamento ainda podem mudar, visto que ainda preliminares, pois as informações do SIM (Sistema de Informações de Mortalidade) do final de 2021 ainda estão em investigação. 

Solange Caetano, secretária geral do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo diz que desde o início foi solicitado ao Ministério da Saúde que informasse o número de profissionais de saúde, dentre estes os de enfermagem, que perderam a vida durante a pandemia, mas isso não ocorreu.

“Tínhamos o levantamento apresentado pelo Observatório da Enfermagem, mas sempre chamamos a atenção por serem dados informados espontaneamente por chefias ou gerências dos Serviços de Enfermagem”, explicou. O Observatório da Enfermagem do Conselho Federal (Cofen) contabilizou, dentro dos seus limites metodológicos, 872 óbitos. A tragédia era ainda maior.

Para Solange, este número apresentado pela ISP demonstra o descaso do governo com as mortes dos trabalhadores, que poderiam ter sido evitadas. Entre os motivos que ela atribui ao alto número de mortes, está o fato do governo federal não ter tratado a Covid, desde o início, como um agente altamente perigoso e contaminante, sendo providenciados os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) de qualidade e em quantidades necessárias para atender aos profissionais de saúde. “Se o Ministério da saúde tivesse imposto aos empregadores a urgência de implantar protocolos, e a vacina tivesse sido comprada em quantidade para proteger a todos, e se tivesse havido testagem em massa, poderíamos ter evitado muitas dessas perdas de vidas”, afirmou a sindicalista.

Outro aspecto importante que o cruzamento das fontes oficiais de dados permitiu estimar foram as mortes de profissionais que não tinham direitos trabalhistas. A conclusão é que cerca de dois terços dos mortos por Covid não tinham carteira assinada.

Trabalhadores e trabalhadoras sem vínculo formal têm menos garantias e menos acesso a atendimento de saúde, o que arrisca suas próprias famílias.

Para a presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo, Elaine Leoni, essa informação mostra a precarização do trabalho na área de saúde: “Hoje em dia, grande parcela dos profissionais de saúde trabalha como PJ (Pessoa Jurídica), sem direitos trabalhistas e, muitos, trabalham em mais de um local. Isso faz com que não tenham o tempo de descanso adequado, algo que se exacerbou na pandemia”, afirma.

O levantamento mostra que os profissionais de saúde morreram mais no início da pandemia e a curva de óbitos caiu com a vacinação antecipada. “A vacinação cumpriu um papel importante para evitar o número de mortes fosse ainda maior”, diz Elaine Leoni.

Ela lembra que o governo demorou cerca de três meses para decidir se comprava ou não vacinas. “Se tivéssemos um governo mais responsável e competente, teríamos evitado boa parte dessas mortes. E também o número de pessoas, em geral, que perderam a vida na pandemia seria bem menor”, acredita. 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Receba as notícias do SEESP!

Inscreva-se na newsletter para continuar lendo. É grátis!

Aceito receber e-mails e concordo com a política de privacidade e os Termos de Uso.