Atualmente, o Brasil ainda convive com a escala 6×1, um modelo que define seis dias de trabalho para apenas um de descanso. Felizmente, o debate sobre o seu fim vem ganhando cada vez mais espaço no interesse público, mas não por acaso.
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, em 2026, cerca de 20 milhões de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros estão submetidos a esse modelo de jornada, vivenciando uma rotina marcada por pouco tempo de recuperação e impactos diretos na saúde física e mental.
No Congresso Nacional, há duas propostas complementares que estão em tramitação e ajudam a organizar esse debate: a PEC 221/2019 e o PL 1838/2026.
A PEC propõe uma mudança estrutural, ao alterar a Constituição para reduzir a jornada semanal de 44 para 36 horas, com implementação gradual ao longo dos anos.
Já o PL tem caráter mais imediato e propõe reduzir a jornada para 40 horas semanais. Por ser um projeto de lei, tem tramitação mais rápida e pode gerar efeitos concretos em menos tempo.
Ao longo da história, sempre que um direito trabalhista avança, surge o argumento de que o país não suportará. Na criação do décimo terceiro salário, por exemplo, também se dizia que a medida poderia comprometer a economia, mas o tempo mostrou o contrário.
Segundo o jornal internacional BBC, hoje o Brasil mantém uma jornada semanal superior à de diversos países. Na França, são 35 horas. Na Dinamarca, 37. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, 40. Trabalhamos mais, descansamos menos e, ainda assim, convivemos com altos índices de adoecimento.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), expedientes longos aumentam em 35% o risco de Acidente Vascular Cerebral e em 17% o risco de doenças cardíacas.
Além disso, no Brasil, em 2025 mais de 546 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais, com diagnósticos de burnout e ansiedade liderando os números, um aumento de 15% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Previdência Social. É um sinal claro de que o modelo atual está adoecendo quem sustenta o país.
Na enfermagem, esse cenário tem fatores ainda mais sensíveis. Cerca de 85% da categoria é formada por mulheres, que enfrentam uma tripla jornada: a profissional, a responsabilidade pelo cuidado com a casa e também com a família.
Nesse contexto, com apenas um único dia de descanso semanal não sobra tempo para lazer, recuperação física, acompanhar o crescimento dos filhos, entre outros.
Defender o fim da escala 6×1 é reconhecer que o trabalho não pode consumir toda a vida de uma pessoa. Esse é um passo necessário para que o Brasil avance em escalas laborais mais equilibradas, que respeitem o tempo, a saúde e a dignidade de quem sustenta o país.