Enfermagem: chegou a hora de transformar nossa força em poder político

22/06/2026

A Enfermagem brasileira não precisa provar sua importância. Todos os dias, milhões de profissionais garantem o funcionamento de hospitais, unidades de saúde, serviços de urgência e emergência, clínicas e instituições de longa permanência. Somos a espinha dorsal da assistência à saúde no Brasil.

Ainda assim, permanece uma pergunta incômoda: por que uma categoria tão numerosa, tão qualificada e tão indispensável continua enfrentando dificuldades para conquistar direitos básicos e uma valorização profissional compatível com sua responsabilidade social?

O tema da 87ª Semana Brasileira de Enfermagem — “Técnica, ética e política: pilares inegociáveis do cuidado da Enfermagem” — oferece uma resposta importante. A Enfermagem já demonstrou, ao longo de sua história, competência técnica e compromisso ético. O desafio que se impõe agora é fortalecer sua capacidade de organização e atuação política.

Com mais de três milhões de profissionais, representa a maior força de trabalho da saúde brasileira. Está presente em todos os municípios do país e acompanha os cidadãos em todas as etapas da vida. Cuidamos, acolhemos, orientamos, gerenciamos equipes e garantimos a continuidade da assistência.
Entretanto, a realidade vivida por grande parte da categoria está distante do reconhecimento que recebe da sociedade. Jornadas exaustivas, múltiplos vínculos empregatícios, salários insuficientes, adoecimento físico e emocional e dificuldades de acesso a direitos previdenciários continuam fazendo parte do cotidiano de milhares de profissionais.

Essa contradição torna-se evidente quando observamos a tramitação de propostas legislativas fundamentais para o futuro da profissão.
A PEC 19/2024 busca consolidar e aperfeiçoar o piso salarial nacional da Enfermagem, criando mecanismos de atualização que preservem seu valor ao longo do tempo. Afinal, não basta conquistar um piso; é preciso garantir que ele não seja corroído pela inflação nem fragilizado por interpretações que comprometam sua efetividade.

O Projeto de Lei nº 2.295/2000, que estabelece a jornada de 30 horas semanais, permanece como uma das mais importantes reivindicações históricas da categoria. Em tramitação há mais de duas décadas, a proposta reconhece uma realidade que os profissionais conhecem profundamente: cuidar exige preparo técnico, atenção permanente e elevado desgaste físico e emocional. Defender jornadas mais humanas não é apenas uma pauta trabalhista; é também uma medida de proteção à saúde dos trabalhadores e de promoção da segurança dos pacientes.

Da mesma forma, o Projeto de Lei Complementar nº 236/2025 busca regulamentar a aposentadoria especial para profissionais expostos diariamente a riscos biológicos, químicos e ergonômicos. Trata-se do reconhecimento de uma realidade concreta, e não da concessão de um privilégio.
A aprovação do piso salarial nacional, por meio da Lei nº 14.434/2022, demonstrou que a mobilização coletiva produz resultados. Entretanto, as dificuldades encontradas em sua implementação também deixaram uma lição importante: nenhuma conquista está definitivamente garantida sem organização permanente e participação política.

Não é por acaso que essas pautas avançam lentamente. Interesses econômicos frequentemente se sobrepõem às necessidades dos trabalhadores da saúde. Argumentos relacionados a custos e impactos financeiros são utilizados para retardar medidas que representam justiça, valorização profissional e melhores condições de assistência à população.

Também é impossível ignorar o peso de fatores históricos. A Enfermagem é uma profissão majoritariamente feminina, com forte presença de trabalhadoras negras e oriundas das classes populares. Durante décadas, a sociedade valorizou a ideia da vocação e do sacrifício, enquanto relegava a segundo plano o reconhecimento da complexidade técnica, científica e gerencial da profissão.

O resultado é um paradoxo inaceitável: a categoria mais importante para o funcionamento cotidiano do sistema de saúde ainda encontra dificuldades para influenciar decisões que afetam diretamente sua vida profissional. É justamente por isso que a participação sindical se torna indispensável.

Direitos não surgem espontaneamente. Nenhuma conquista histórica da classe trabalhadora foi resultado de concessão voluntária. O piso salarial nacional, os avanços nas condições de trabalho e as melhorias na legislação profissional foram frutos da mobilização coletiva, da atuação das entidades representativas e do engajamento dos próprios trabalhadores.
A valorização da profissão não depende apenas do reconhecimento da sociedade. Depende da capacidade da categoria de ocupar espaços de decisão, participar das mobilizações, fortalecer suas entidades representativas e defender seus interesses de forma organizada.

A Enfermagem brasileira já demonstrou sua competência técnica. Já demonstrou seu compromisso ético. Agora precisa consolidar sua força política.
Somos mais de três milhões de profissionais. Somos a maior força de trabalho da saúde brasileira. Está na hora de transformar essa força numérica em poder de mobilização, influência e conquista de direitos.

O futuro da categoria será construído por aqueles que compreendem que participar não é uma opção, mas uma necessidade.

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